Sistema de monitoramento contínuo reduz interferências no cultivo embrionário e pode aumentar o sucesso da fertilização in vitro
Quem já passou por um tratamento de fertilização in vitro sabe que a espera pelos resultados é uma das etapas mais difíceis. O que muitos não sabem é que parte das chances de sucesso pode estar sendo definida dentro da incubadora, nos primeiros dias de desenvolvimento do embrião, em uma fase extremamente delicada e invisível para a paciente.
É justamente nesse período que a tecnologia time lapse pode fazer diferença. Nos métodos convencionais, os embriões precisam ser retirados da incubadora em momentos específicos para avaliação no microscópio. Esse processo provoca pequenas variações de temperatura, umidade e composição de gases. Com o monitoramento contínuo, microscópios instalados dentro da própria incubadora registram imagens ao longo de todo o desenvolvimento embrionário. Assim, o embrião permanece no ambiente ideal durante todo o processo.
“O embrião é extremamente sensível ao ambiente onde está se desenvolvendo. Qualquer oscilação pode comprometer uma fase que não tem como ser repetida. Ao reduzir essas interferências, oferecemos condições muito mais próximas do ideal e isso se reflete diretamente nas chances reais de gravidez”, explica o médico especialista em reprodução humana, João Guilherme Grassi.
Além de proteger o ambiente de cultivo, a tecnologia amplia a quantidade de informações disponíveis para a equipe médica. Com as imagens registradas de forma contínua, é possível observar não apenas a aparência do embrião em um momento isolado, mas também o ritmo de desenvolvimento, os horários em que ele atinge cada etapa e a forma como evolui ao longo dos dias.
“Quando o embrião não precisa ser retirado da incubadora, conseguimos preservar melhor o ambiente de cultivo. Isso contribui para uma melhor taxa de evolução e para que tenhamos mais embriões viáveis ao fim do processo, aumentando as possibilidades de transferência. A tecnologia também permite uma análise morfocinética, que não depende apenas da morfologia estática do embrião. Nós conseguimos observar em que fase, em que horário e em quanto tempo ele atinge cada marco específico do desenvolvimento. Essas informações ajudam a selecionar com mais precisão qual embrião deve ser transferido primeiro”, afirma Grassi.
Estudos científicos sugerem que sistemas de monitoramento contínuo podem contribuir para melhores resultados em determinados cenários, especialmente quando associados à análise morfocinética do desenvolvimento embrionário. Em uma metanálise publicada na revista Reproductive BioMedicine Online, pacientes acompanhadas por essa tecnologia apresentaram taxas mais altas de gravidez em evolução e de nascidos vivos quando comparadas ao método convencional. No entanto, especialistas ressaltam que os resultados ainda são heterogêneos entre os estudos e que o principal consenso atual está na capacidade da tecnologia de oferecer um ambiente de cultivo mais estável e uma observação mais detalhada do desenvolvimento embrionário.

Para as pacientes, isso significa mais segurança em uma etapa decisiva do tratamento. Cada embrião preservado e cada informação adicional podem fazer diferença em um processo que envolve expectativa, investimento emocional e, muitas vezes, poucas tentativas disponíveis.
A tecnologia chega a Londrina acompanhando um movimento observado em clínicas de referência no Brasil e no mundo, em um momento especialmente importante. Dados do IBGE mostram que as brasileiras estão tendo filhos cada vez mais tarde, o que torna cada tentativa de fertilização in vitro ainda mais valiosa.
“Historicamente, a reprodução assistida sempre caminhou em direção a ambientes cada vez mais controlados. Quando começamos, muitas das tecnologias que hoje consideramos básicas ainda não existiam. Ver a embriologia chegar a esse nível de controle e monitorização é algo realmente impressionante. Mais do que tecnologia, estamos falando de uma ferramenta que pode mudar a vida das pessoas”, afirma Grassi.





