Setembro Amarelo: o peso invisível na saúde mental das mulheres que comandam negócios

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Entre conquistas e sobrecarga, empreendedoras brasileiras lidam com altos índices de ansiedade, depressão e burnout

Por trás das estatísticas que celebram a força do empreendedorismo feminino no Brasil, há uma realidade pouco discutida: o alto custo emocional de quem decide comandar o próprio negócio. Dados do Sebrae mostram que o país conta com mais de 10 milhões de brasileiras que lideram empresas, mas, enquanto esses números crescem, pesquisas globais revelam que as empreendedoras sofrem maiores índices de estresse, ansiedade, depressão e exaustão em comparação aos homens.

estudo “Saúde e Performance de Pessoas Empreendedoras”, elaborado pela Endeavor Brasil em colaboração com o BID Lab, mostra que as mulheres empreendedoras relataram condições adversas de saúde mental em maior frequência que homens, em especial ansiedade (88,2% versus 84,8%) e ataque de pânico (29,4% versus 20,2%). Elas também consideram a jornada empreendedora mais estressante (76,5%) que os homens (54,5%). Por fim, 47,1% delas apontam os vieses do ecossistema de gênero como um desafio.

Essa vulnerabilidade se agrava em um cenário de múltiplas jornadas: além do trabalho, muitas ainda acumulam a gestão da casa, dos filhos e de responsabilidades familiares invisíveis.

Para a executiva Vanessa Sandrini, uma das maiores vozes do varejo brasileiro e fundadora da VaS Continuum, mentora estratégica e criadora do Ellas do Varejo, esse peso emocional se tornou “o grande elefante na sala” das discussões sobre negócios. “Quando pensamos em empreendedorismo, falamos de faturamento, inovação e mercado. Pouco se fala sobre o preço emocional que as mulheres acabam tendo que bancar. É uma conta que não aparece no balanço financeiro, mas que pode levar a perdas imensuráveis, tanto pessoais quanto econômicas”, destaca.

O tabu do sofrimento silencioso

O estresse crônico entre mulheres empreendedoras não é apenas um problema individual: ele afeta também a longevidade e a sustentabilidade dos negócios. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que questões de saúde mental custam 4% do PIB mundial em perda de produtividade. No caso específico do Brasil, essa porcentagem equivale anualmente a aproximadamente R$ 468 bilhões, se levarmos em consideração o PIB do país em 2024, que foi de R$ 11,7 trilhões (IBGE).

Esse impacto econômico reforça como a saúde mental deixou de ser uma questão restrita à vida privada e passou a ser também um fator estratégico para a competitividade dos negócios. No universo das empreendedoras, a sobrecarga mental costuma se traduzir em dificuldades de inovação, queda de produtividade e até fechamento precoce das empresas.

“Existe uma narrativa de que a mulher precisa dar conta de tudo sem reclamar: liderar, inovar, cuidar da família, da casa, dos próprios sonhos… Essa idealização é cruel, porque naturaliza o adoecimento como se fosse parte do jogo, e não é. É preciso haver integração entre razão e sensibilidade”, afirma Vanessa. “O silêncio em torno do tema cria uma armadilha: as mulheres acreditam que pedir ajuda ou admitir vulnerabilidade é sinal de fraqueza. O resultado é um ciclo de sobrecarga, adoecimento e, em muitos casos, desistência dos negócios”.

O que precisa mudar

Para enfrentar esse cenário, especialistas defendem que a saúde mental das empreendedoras precisa sair do plano das recomendações individuais e ser incorporada como estratégia central de desenvolvimento econômico e social. Isso passa, em primeiro lugar, por políticas públicas mais robustas, que ampliem o acesso ao crédito, criem incentivos fiscais para negócios liderados por mulheres e implementem programas de suporte psicológico e capacitação em larga escala.

No campo corporativo, aceleradoras, fundos de investimento e associações empresariais têm papel crucial. “Redes de mentoria, grupos de apoio e práticas de gestão que valorizem equilíbrio e diversidade são ferramentas que reduzem o isolamento comum no empreendedorismo feminino”, destaca Vanessa Sandrini.

Mas a mudança também é cultural. É preciso romper com a narrativa de que a mulher só será reconhecida se acumular jornadas infinitas e provar resiliência a qualquer custo. “O futuro dos negócios não pode ser construído às custas do adoecimento das suas lideranças. O caminho passa por ressignificar o sucesso: não apenas em termos de lucro, mas de longevidade estratégica, legado social e capacidade de gerar impacto positivo”, aponta a executiva.

Essa perspectiva dialoga com movimentos globais, como o Embassy of the Future, do qual Vanessa é parte, e que apontam para um novo paradigma de liderança baseado em co-inteligência: a integração entre razão, estratégia e propósito, mirando em um futuro dos negócios muito mais humanizado. Para as mulheres empreendedoras, isso significa criar condições em que seja possível inovar sem abrir mão da saúde, crescer sem abdicar da vida pessoal e liderar sem silenciar vulnerabilidades.

“Em última instância, investir no bem-estar das empreendedoras é investir na sustentabilidade dos negócios e no próprio futuro econômico do país. Afinal, sem saúde mental, não há inovação, não há legado e não há futuro”, conclui a fundadora da VaS Continuum.

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