Na EC Café Sem Troco, aulas de espanhol e apoio pedagógico promovem inclusão da comunidade indígena Warao
Brasília, 14 de julho de 2025 — Na zona rural do Paranoá, o som do espanhol se mistura naturalmente ao português na Escola Classe Café Sem Troco. A convivência bilíngue é resultado da presença de estudantes da etnia Warao Coromoto, grupo indígena venezuelano católico, acolhido pela unidade desde 2023. Atualmente, cerca de 50 dos quase 500 alunos da escola são imigrantes venezuelanos.
Para promover a integração, a escola, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), incluiu aulas de espanhol desde a educação infantil até o 5º ano do ensino fundamental. O projeto é conduzido por estudantes de Letras da universidade, que atuam como educadores sociais. “Queremos construir uma comunidade hispanohablante, onde brasileiros e imigrantes possam se comunicar de forma natural e respeitosa”, explica o educador Thiago Cardozo.
Segundo a Secretaria de Educação do DF, 1.654 estudantes migrantes estão matriculados na rede pública, a maioria no ensino fundamental. As regiões com maior presença de imigrantes são Paranoá, São Sebastião, Ceilândia, Taguatinga e o Plano Piloto.
A diretora da escola, Sheyla Passos, relembra o início do acolhimento. “Tivemos que adaptar espaços e criar uma rede de apoio. Muitos alunos nunca haviam frequentado uma escola e alguns só falavam warao. Foi desafiador, mas avançamos com muito carinho e dedicação”.
Hoje, os alunos mais jovens estão plenamente integrados às turmas regulares, enquanto os mais velhos participam de um plano pedagógico especial, com vistas à participação no Encceja e à futura inclusão na Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Nossa meta é acelerar o aprendizado e garantir oportunidades para todos”, reforça Sheyla.
Histórias de transformação
Para Santa Eduviges, de 16 anos, o contato com a escola foi inédito ao chegar ao Brasil. Hoje, ela se destaca e tem a matemática como disciplina favorita. Já Wilde Zapata, 17, teve sua primeira experiência escolar em Roraima e agora estuda com mais cinco irmãos no Café Sem Troco. Autodidata, Wilde aprendeu a ler em português e afirma: “Gosto da escola, de estudar e da comida. Minha preferida é a galinhada”.
O pai de Wilde é um dos muitos responsáveis que acompanham de perto o desempenho dos filhos. “Sempre manda mensagens, pergunta como estão, é muito presente”, relata a professora Maria Janerrandra Fogaça, que atua diretamente com os adolescentes imigrantes.
Rede de apoio e proteção
A integração dos estudantes faz parte de uma rede de políticas públicas que envolvem diversas secretarias do GDF. A SEEDF garante o direito à matrícula de migrantes, mesmo sem documentação completa. A Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) oferece atendimento especializado no Creas Migrantes, no Setor Bancário Norte, e a Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus) atua com projetos de combate à xenofobia e apoio às mulheres migrantes.
A Secretaria de Saúde, por sua vez, elaborou um guia de acolhimento para orientar estrangeiros sobre o acesso ao SUS.
Para o cacique Eduardo Baez, a oportunidade de estudar e sonhar com um futuro melhor é o maior ganho da comunidade Warao Coromoto no Brasil. “Queremos que nossas crianças tenham carreiras, que se tornem professores. Saímos da Venezuela porque não havia comida nem remédios. Aqui, temos educação e dignidade”.





