Por Márcia Mendonça Carneiro
As mulheres nascem com um estoque fixo e não-renovável de óvulos, cuja quantidade e qualidade reduzem com o passar dos anos até a ocorrência da última menstruação (menopausa) que ocorre, em média, por volta dos 51 anos, mas as modificações que levam à menopausa podem começar alguns anos antes. Este período, chamado “transição menopausal”, se manifesta principalmente por irregularidade menstrual, redução da fertilidade e alterações do humor, entre outros sintomas. Tal fato se explica pela presença dos efeitos do estrogênio (hormônio feminino produzido pelos ovários) ser sentido em todo o organismo feminino e não apenas no aparelho reprodutor. Assim, podem ocorrer vários tipos de sintomas incluindo ondas de calor, alterações do sono e do humor, além do aumento do risco de doenças cardiovasculares, osteoporose e ressecamento vaginal.
Estudos recentes comprovam a importância do estrogênio para a saúde das mulheres. A remoção cirúrgica dos ovários antes da menopausa acelerara o envelhecimento e aumenta a ocorrência de doenças. O estrogênio também pode interagir com o microbioma intestinal (conjunto de bactérias que habitam o intestino) e resultar em uma variedade de doenças como obesidade, síndrome metabólica, infertilidade, endometriose e câncer.
Diante disso, parece lógico realizar a reposição hormonal quando os ovários param de funcionar para evitar os efeitos adversos à saúde feminina decorrentes da falta do estrogênio. Infelizmente, a equação é um pouco mais complicada e a reposição hormonal na menopausa é assunto que desperta debates no meio médico e científico. O estrogênio é um hormônio fundamental para a saúde feminina, pois orquestra uma variedade de funções vitais que podem mudar o equilíbrio da saúde para a doença, mas seu uso não está livre de efeitos colaterais. Da mesma forma que o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde (personagens do livro -O médico e o monstro) na história de Robert Louis Stevenson, o estrogênio pode mostrar sua face boa ou má, dependendo das circunstâncias.
A indicação de terapia hormonal (TH) para repor o estrogênio deve ser individualizada e requer avaliação médica especializada que leve em consideração a presença de sintomas, risco cardiovascular, história pessoal e familiar de câncer, entre outros fatores. Atualmente, considera-se que o grupo que mais poderia se beneficiar da terapia hormonal são as mulheres antes dos 60 anos de idade (ou com até 10 anos de menopausa), com fogachos (ondas de calor), respeitando-se as contraindicações (câncer de mama ou qualquer câncer hormônio dependente, história pessoal de trombose, sangramento vaginal não avaliado, doença coronariana, doença cerebrovascular e lúpus). É preciso ressaltar que há opções não-hormonais para combater alguns desses sintomas indesejáveis da menopausa e que a prescrição da TH exige a presença clara de indicação, como alívio de sintomas associados à menopausa, e a ausência de contraindicações.
A menopausa, assim como a menstruação, é cercada de inúmeras crenças e mitos, muitos dos quais infundados. Muitas mulheres acham que “é o fim da linha”, o que não é verdade. Trata-se de um período de transição, associado a mudanças hormonais que podem ser devidamente tratadas. As mudanças hormonais associadas ao envelhecimento podem trazer riscos à saúde como obesidade, doenças cardiovasculares e câncer, além de afetar negativamente a qualidade de vida. Dessa forma, ter acompanhamento médico especializado com foco no tratamento das alterações hormonais e prevenção de várias doenças é fundamental para as mulheres terem mais qualidade de vida nesta fase da vida.
Márcia Mendonça Carneiro é médica da clínica Origen BH, especialista em Reprodução Assistida, doutora em Ginecologia e professora associada do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).





