Por Amélia Greier*
O início das férias de verão traz alívio e grandes expectativas às crianças. Longe da rotina e dos muros escolares, surge a promessa de brincadeiras, descanso e dias leves. Porém, para as mães, não existe o mesmo “lugar ao sol”: pelo contrário, a rotina se amplia. Não há “menos trabalho”, apenas “outro tipo de trabalho” que faz mais volume à jornada dupla (exercida pela maioria das mulheres) e renova a exaustão.
Além do interminável serviço doméstico — que apesar de notável, não é reconhecido — nesse período, as mães recebem novos cargos: administradoras de conflitos e emoções infantis, gerentes de lazer e consumo familiar, pedagogas, contadoras de histórias, recreadoras, motoristas.
Nos bastidores dos acontecimentos, elas se tornam pano de fundo de vivências incríveis e trabalham como facilitadoras das vidas alheias em tempo integral, sem que um fragmento dessas facilidades beneficie suas próprias vidas. E todo esse labor é visto como um reles “dever de mãe”, mesmo quando dados da Oxfam International mostram que tal “função” custaria U$ 10,8 trilhões ao ano, se fosse devidamente remunerada.
É muito oportuno para a sociedade que cada mãe enxergue essa sobrecarga como algo natural. Assim, desloca-
Portanto, o primeiro passo para tirar os trabalhos de cuidado da sombra é transformar o que hoje é “destino individual” em responsabilidade coletiva. É hora de admitir que essa assimetria não é natural, mas construída, e somente a ação coletiva — social, política e cultural — pode devolver luz às mulheres.
*Amélia Greier é escritora e autora do romance O peso da inexistência.





