Representantes do empresariado defendem avaliação de impactos sobre custos, investimentos e emprego e apresentam dados de endividamento, inadimplência e fluxo de capital
Da Redação
A proposta de redução da jornada de trabalho tem gerado manifestações de representantes do setor produtivo, que defendem um debate sobre os possíveis impactos da medida para empresas, trabalhadores e para a economia brasileira. Para os empresários, o Brasil já enfrenta elevada carga tributária, encargos trabalhistas, burocracia e custos operacionais.
Nesse cenário, afirmam que uma mudança nas regras trabalhistas às vésperas das eleições, sem avaliação detalhada de seus efeitos, pode ampliar a insegurança e elevar o custo de quem produz. “Mudar as regras do trabalho às vésperas das eleições? Agora não.” A frase resume a posição de representantes empresariais que defendem previsibilidade, segurança jurídica e um ambiente econômico capaz de estimular investimentos e geração de empregos.
A avaliação do setor é que incertezas econômicas, fiscais e regulatórias podem reduzir a disposição dos investidores. Em 2024, houve retirada líquida de R$ 32,1 bilhões de capital estrangeiro da Bolsa brasileira, dado utilizado por críticos do atual ambiente econômico. A preocupação também envolve o movimento de empresas brasileiras que buscam ampliar operações no exterior ou transferir parte de suas estruturas. Entre os destinos citados está o Paraguai, que oferece regimes de incentivo à produção, como a Lei de Maquila.
Também são mencionados Estados Unidos e países europeus. Entre os argumentos apresentados pelo setor está a afirmação de que 23 empresas brasileiras teriam migrado para o Paraguai, atraídas, entre outros fatores, pelo regime de Maquila. O número não foi localizado em fonte oficial durante a apuração e deve ser tratado como informação atribuída ao setor. A reforma tributária também entrou no centro das preocupações empresariais.
A nova estrutura prevê a substituição gradual de tributos por um modelo de IVA dual, formado pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). A referência utilizada para a alíquota-padrão foi de 26,5%. Uma estimativa divulgada em agosto de 2026 pelo Comitê Gestor do IBS chegou a 27,91% para fins de projeção de arrecadação em 2027.
O percentual não representa uma nova alíquota definitiva. Trata-se de uma estimativa utilizada para projeções. Para representantes do setor, a regulamentação da reforma tributária se tornou mais uma fonte de preocupação em um momento de juros elevados, crédito caro e desaceleração em determinados segmentos.
A avaliação é que, quando as regras mudam ou permanecem cercadas de incertezas, decisões de contratação, expansão e abertura de novas unidades podem ser adiadas. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontam que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho de 2026, o maior nível da série histórica pelo sexto mês consecutivo. A pesquisa também indicou que 29,5% da renda das famílias estava comprometida com dívidas.
Segundo a Serasa Experian, o número de CNPJs inadimplentes ultrapassou 9,1 milhões em junho de 2026, atingindo o maior nível da série histórica. As dívidas acumuladas chegaram a R$ 232,9 bilhões. O Brasil encerrou o primeiro semestre de 2026 com 6.341 empresas em recuperação judicial, alta de 6,2% em relação ao fim de 2025, segundo levantamento do Monitor RGF-BizDoc. O mesmo levantamento apontou que o número chegou a 6.513 empresas em maio, antes de recuar para o patamar registrado em junho.
Desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial praticamente triplicou, enquanto pequenas e médias empresas também registraram crescimento. O setor produtivo também questiona as condições de competição entre empresas brasileiras e vendedores internacionais, com destaque para a tributação das compras internacionais de baixo valor, conhecida como “taxa das blusinhas”.
Na avaliação de representantes do comércio, compras internacionais de até US$ 50 podem contar com tributação federal de 20%, enquanto empresas brasileiras enfrentam carga tributária total que, dependendo da atividade, do produto e do regime, pode chegar a 40% ou 45%. A comparação não representa a incidência de um único imposto. Para os representantes do setor, uma alteração da jornada precisa ser precedida por estudos, diálogo e avaliação dos possíveis efeitos sobre folha de pagamento, contratação, produtividade, organização das empresas e geração de empregos.


